Reportagem publicada na revista InvestMais - edição de dezembro de 2008.
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Durante muito tempo a economia foi vista como uma ciência racional. No entanto, fatos como a bolha da internet abriram a discussão: será que o chamado homo economicus, que surgiu no século XIX como sendo uma evolução do homo sapiens e que de acordo com as teorias neoclássicas da economia é a real representação da racionalidade, existe?
Ao longo do século XX, inúmeros teóricos discutiram a veracidade dessa suposta continuação da teoria da evolução de Charles Darwin. Para os autores Alan J. MacFadyen e Heather W. MacFadyen existe uma ambigüidade por trás da definição do homem econômico. Em uma compilação de trabalhos sobre a teoria e aplicações da Psicologia Econômica, publicado em 1986, eles defendem a idéia de que “de um lado, temos o homem econômico racional, que se defronta com um conjunto de preferências estável, consistente e bem ordenado, o qual lhe permite, com a disponibilidade de informação completa, prever todos os possíveis estados do mundo e, assim, selecionar o curso da ação que lhe dê o mais alto sentimento de felicidade. De outro, temos os humanos reais, que, ao contrário, têm preferências mutáveis, inconsistentes e muitas vezes inconscientes e irracionais”. Tal visão nos permite afirmar que o tal homem econômico está longe de ser uma realidade.
E sobre isso, a psicanalista doutora em psicologia econômica, Vera Rita de Mello Ferreira, não deixa dúvidas: “O homem econômico nunca existiu. Ele é um modelo muito simplificado que está bastante distante da realidade. Tanto a psicologia econômica quanto a economia comportamental já alertavam, lá atrás, que as teorias econômicas tradicionais como essa do modelo do homem econômico não funcionam, porque as pessoas fazem escolhas inteiramente inconsistentes. Tomando como exemplo a questão da perda e do ganho, para um economista, cinqüenta reais são cinqüenta reais, mas quando um investidor perde essa quantia sente que o valor é muito maior do que quando ganha”. E se você ainda acredita que a maneira como investe está imune ao efeito de suas emoções, continue a ler e aprenda mais sobre as finanças comportamentais.
O que são Finanças Comportamentais?
A crise está deixando o mercado ensandecido e dificultando o trabalho dos analistas. Virou rotina ouvirmos deles que as previsões, hoje, precisam ser feitas por psicólogos e psicanalistas e não por economistas. E aí que as finanças comportamentais se encaixam. Elas estudam de que forma a psicologia afeta as decisões de investimento, as empresas e o mercado. “As Finanças Comportamentais não negam que a maioria das decisões econômicas sejam tomadas de forma racional e deliberada. Mas consideram que, se não forem levadas em conta também as decisões emocionais e automáticas, os modelos econômicos serão falhos para explicar o funcionamento dos mercados”, explica o doutor em Finanças e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Jurandir Sell Macedo Jr.
O momento que estamos vivendo é perfeito para entender o porquê disso. Durante muito tempo os investidores brasileiros se acostumaram com os ganhos expressivos da renda variável. Mesmo sabendo que a bolsa oferece riscos, os últimos anos foram tão rentáveis que tudo o que se pensava sobre perder dinheiro ficou esquecido em algum lugar do cérebro do investidor. Agora, no ápice da crise, com os ativos subvalorizados e o futuro incerto, as pessoas voltam a lembrar que o risco existe, entram em desespero e se esquecem dos longos períodos de vacas gordas.
“Isso ocorre porque o nosso lado emocional é muito mais antigo do que o racional. Há milhões de anos, nossos circuitos emocionais nos prepararam para ter reações rápidas e impulsivas, fundamentais para uma sobrevivência imediata. Por exemplo, o homem primitivo via o mamute vindo na direção dele e saía correndo, não ficava parado para pensar sobre o que ia fazer. E assim ele sobreviveu. Quando ele conseguiu se desenvolver mais, conseguiu superar o medo do mamute para caçá-lo em grupo e conseguir a carne. Aí começou a raciocinar. Só que o lado racional do ser humano ainda é muito frágil. Então, a qualquer tempestade emocional, ele volta ao passado e age da maneira mais primitiva e rudimentar, que é quando funciona quase exclusivamente de acordo com as emoções”, explica doutora Rita Ferreira.
Em outras palavras, muitos investidores tomam suas decisões baseados em regras heurísticas. Um exemplo disso é quando um investidor compra uma ação por ter recebido uma recomendação de um amigo sem se preocupar em estudar sobre a empresa, mas mesmo assim acaba tendo um bom retorno. Pode ser que dali em diante ele tome como regra investir baseado em recomendações de amigos. Mas essa é uma atitude completamente irracional e o problema desse ou de qualquer outro exemplo de heurística é que o investidor se torna muito suscetível às perdas. Os atalhos mentais, como também são conhecidas as heurísticas, podem induzir o investidor a tomar decisões equivocadas.
Mas não se desespere, pois a heurística tem cura e quem dá receita a capaz de aliviar suas dores e perdas é a doutora Vera Rita:
· Reconheça que o lado emocional existe e que você jamais investirá sem ele
· Planeje antes de investir
· Converse com especialistas
· Estude o mercado
· Enxergue-se no longo prazo.
· Registre suas decisões e expectativas de investimento para, no futuro, voltar a elas e ver onde errou e onde acertou
No livro Previsivelmente Irracional, Dan Ariely utiliza experimentos para comprovar o quanto somos suscetíveis à nossa irracionalidade e o quanto isso afeta nossa vida e nossas decisões. Através de exemplos do cotidiano, o autor quebra os paradigmas racionais da economia tradicional e mostra que seguir os conceitos da economia comportamental é a receita para entendermos mais sobre nós mesmos e, conseqüentemente, para nos tornarmos investidores mais conscientes e, por que não, mais racionais.
Fazendo uso do ditado popular, é errando que se aprende. E é com um trecho do livro que encerramos, ou melhor damos um tempo na conversa sobre investimentos e irracionalidade. Afinal, com tudo o que anda acontecendo e deve acontecer no mercado, será difícil deixarmos de falar sobre o comportamento irracional do investidor. aditado popular, acionais.estidores mais conscientes e, por que nra comprovar o quantsas decis “Se todos cometermos erros sistematicamente nas decisões, então por que não elaborar novas estratégias, ferramentas e métodos para nos ajudar a tomar decisões melhores e melhorar nosso bem-estar geral? (…) Embora a irracionalidade seja lugar-comum, não significa obrigatoriamente que sejamos indefesos. Assim que entendemos quando e onde podemos tomar decisões errôneas, podemos tentar ser mais vigilantes e nos obrigar a pensar de outra maneira acerca dessas decisões”.
Dicas para lucrar com as finanças comportamentais
No livro A Lógica do Mercado – Como lucrar com finanças comportamentais, o doutor e professor de finanças da Washington State University, John R. Nofsinger aborda vários conceitos relacionados às finanças comportamentais. Confira algumas dicas extraídas do livro:
1- Saiba por que está investindo
Muitos investidores não traçam objetivos antes de entrar na bolsa e esse é um dos motivos que mais tarde fazem com que a pessoa se sinta pressionada e emocionalmente abalada em função de um mau momento do mercado. Nofsinger diz que é importante estabelecer metas específicas e maneiras de as alcançar. Tendo em mente sua razão para investir, a pessoa tem uma visão mais abrangente a longo prazo, sendo capaz de controlar e medir seu progresso, para determinar se seu comportamento é condizente ou não com suas metas.
2- Tenha critérios quantitativos de investimento
Para o autor, ter uma série de critérios quantitativos de investimento e relacioná-los por escrito permite que se evite investir levado por emoções, rumores, histórias e outros vieses psicológicos. Ele recomenda que antes de comprar uma ação deve-se comparar os critérios da empresa que está investindo com os seus próprios. Caso não aja uma sinergia, não invista.
3- Diversifique
Essa é uma das regras básicas do investidor que deseja diminuir o risco. Nofsinger recomenda o investimento em várias empresas diferentes, atuantes em setores diferentes. Além disso, reforça as vantagens dos fundos de renda fixa e títulos públicos. A diversificação é uma ótima estratégia para você que deseja ficar mais tranqüilo e indiferente à irracionalidade do mercado e, porque não, à sua própria.
4- Controle o ambiente de seus investimentos: Se você não quer comer, não existem motivos para abrir a geladeira: A mesma regra vale para quem deseja manter uma visão de longo prazo. A respeito disso, Nofsinger dá as dicas:
- Verifique suas ações uma vez por mês: se agir assim, verificando suas ações uma vez por mês e não de hora em hora, estará inibindo reações comportamentais do tipo “picada de cobra”, “busca pela satisfação” ou apostar com o “dinheiro da banca”.
- Faça suas transações somente uma vez por mês, sempre no mesmo dia: com isso, evitará a idéia errada de que rapidez é importante, já que ela só é importante para quem ouviu um boato sobre determinada ação e está correndo atrás para comprá-la antes que a bolha estoure. Além disso, fazer as transações apenas uma vez por mês ajuda a superar o excesso de confiança que atrapalha as negociações.
- Analise seu portfólio anualmente, para ver se está consoante com seus objetivos específicos: será que cada um dos ativos de sua carteira contribui para o alcance dos objetivos de investimento e a manutenção da diversificação?
Para saber mais:
Livro: A Lógica do Mercado
Autor: John R. Nofsinger
Editora: Fundamento
Livro: Previsivelmente Irracional
Autor: Dan Ariely
Editora: Campus/Elsevier
Livro: Decisões Econômicas: Você já parou para pensar?
Autora: Vera Rita de Mello Ferreira
Editora: Saraiva
Livro: Psicologia Econômica – Estudo do comportamento econômico e da tomada de decisão
Autora: Vera Rita de Mello Ferreira
Editora: Campus/Elsevier
Colaboração: João Guilherme Brotto
Revista InvestMais