Vamos imaginar a seguinte situação. Você, leitor do InsiderNews, já está na bolsa e investe em ações regularmente. Você tem absoluta certeza de que está fazendo um bom investimento, mesmo quando a bolsa dá os seus piripaques e despenca, como aconteceu em 2008. Isso porque você, um pouco mais escolado que a média, sabe que o investimento em ações é para o longo prazo, ainda que algumas tacadas no curto e curtíssimo prazo possam ser dadas de vez em quando. E você tem números para provar que o investimento é bom. Mesmo assim, o chato do seu vizinho insiste em dizer que investir em ações é coisa para loucos, que só apostadores de má índole estão na bolsa e que somente os tubarões ganham, e ganham em cima dos bagrinhos, como é o caso dele e, na opinião dele, do seu. Como convencer esse vizinho que investir em ações é algo bom?
Para começar a conversa com ele, faça um pergunta que quase certamente trará um sim como resposta: você gostaria de ser sócio de uma empresa lucrativa e ganhar dinheiro com ela sem ter que trabalhar nela? É muito difícil que alguém responda não a essa pergunta, mas ele pode desconfiar de tamanha “moleza”: “como, ganhar sem trabalhar?” Aí você conta um pouco de história. Durante a época das grandes navegações, nos séculos XVI e XVII, as expedições montadas eram iniciativas de alto risco e custos. Poucos eram aqueles que tinham o capital suficiente para bancar sozinho uma viagem à América ou às Índias, como se chamava o Oriente. Na Holanda, alguns capitalistas decidiram repartir os custos da iniciativa, e consequentemente os lucros, ao montar sociedades de propósito específico. Ou seja, a cada viagem se juntava um grupo de investidores que levantavam o dinheiro necessário para a viagem e a custeavam, para então ficarem rezando (literalmente) pela volta da expedição sã e salva e com os porões cheios de mercadorias. Os lucros eram altíssimos, e os riscos também. Alguns perderam tudo, mas quem ganhou ganhou muito.
A partir daí, os empreendedores perceberam que era possível encontrar capitalistas, isto é, pessoas com dinheiro que pudessem cobrir os custos de implantação de suas empresas, com a promessa de distribuir os lucros da empreitada no futuro. Se começou com as navegações, hoje essa é uma realidade para todas as empresas na bolsa de valores, e algumas fora delas (quando se usam os fundos de private equity, ainda pouco conhecidos no Brasil). O que a pessoa faz é investir o seu dinheiro - e que muito provavelmente foi ganho com trabalho sim, logo, não é dinheiro “não suado” - em uma empresa para que outras pessoas trabalhem nela e remunerem o seu capital investido.
O passo seguinte da conversa é mostrar a ele que ele pode ser sócio de muitas empresas, dos mais variados ramos. Siderurgia, mineração, exploração e comércio de petróleo e derivados, planos de saúde, bancos, enfim, a bolsa está lá com dezenas de setores da atividade econômica para ele escolher. Claro, aí está o trabalho do investidor: pesquisar cada setor para ver o que ele acha mais atraente, ler bastante sobre economia para saber para que lado vai o mundo e que empresas se beneficiarão ou não desse rumo e fazer suas apostas. Continua sendo uma aposta, mas com estudo ela é uma aposta menos arriscada. E ainda que ele não pegue no pesado nessas empresas, vai precisar acompanhar sempre o que elas fazem para ver se o seu dinheiro está sendo bem investido. Claro, isso também pode ser feito por uma corretora, mas tem um custo.
Se ele ainda não estiver convencido, mostre as tabelas de rentabilidade da bolsa ao longo do tempo. Mas seja honesto, não pegue apenas a de 2009, por exemplo, quando a bolsa rendeu mais de 80% em real, mais de 140% em dólar. Pegue uma tabela que mostre uns 10 anos de evolução, e que inclua os dividendos nessa conta como reinvestimento, ou seja, todos os dividendos pagos foram reinvestidos na compra de ações que geraram esses dividendos. E pode pegar um período de tempo com uma crise no meio (há várias, você escolhe a que acha mais “simpática”). Você também vai se espantar com o resultado, se nunca fez essa conta. A bolsa com os dividendos é imbatível. Há alguns que fazem algumas contas para mostrar que CDI ou CDB ou qualquer outro fundo podem ter mais retorno, mas é quase certo que a comparação é feita apenas com as cotações de ações, nunca com dividendos. E mesmo assim, é uma conta enviesada, quase estatística, para provar um ponto de vista (tive um professor de filosofia que mostrou um filósofo grego que provava que 2+2 podia ser três ou cinco, dependendo de como se fazia a conta).
Claro, como seu vizinho tem receios, não o faça investir em micos, por favor. Estimule-o a investir na Vale, na Petrobras e nos grandes bancos como Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, instituições virtualmente inquebráveis (nada é impossível, mas isso é improvável) para começar. Depois, com o tempo, ele procurará outras opções que trazem bons resultados, setores que lhe agradam, sempre com uma segurança acima da média (investimento 100% seguro, só a poupança, com a rentabilidade que todos conhecemos). Obviamente, convencer o seu vizinho a investir em ações tem um lado positivo para você. Quanto mais investidores houver, maior liquidez no mercado, maior facilidade para se comprar e vender ativos, maior giro de dinheiro, maior atração de empresas para a bolsa, mais opções de investimento, mais transparência nas empresas, enfim, é um círculo virtuoso que lhe beneficia sem sombra de dúvida.
Se com tudo isso seu vizinho não quiser investir em ações, paciência. Ele entenderá o que perdeu tarde demais, enquanto você curtirá seu futuro com tranquilidade e segurança. Quem sabe até, ao emprestar um dinheiro para o vizinho, você não começa a sua financeira?
Bons Investimentos!