SÃO PAULO - Os dados de emprego nos Estados Unidos deram o tom dos negócios nos mercados brasileiros e internacionais na quinta-feira. A decepção com os números promoveu o clássico movimento de aversão ao risco, com agentes vendendo ações e commodities e correndo para o dólar e títulos da dívida americana.
O otimismo quanto à recuperação da economia dos EUA recebeu mais um golpe, ontem, depois que o Departamento de Trabalho mostrou que foram perdidos 467 mil empregos durante o mês passado, montante superior às estimativas, que oscilavam entre 365 mil a 400 mil vagas. Já a taxa de desemprego avançou de 9,4% em maio para 9,5% em junho, abaixo, contudo, dos 9,6% esperados.
Refletindo o tom negativo do dia, os agentes foram às vendas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que lutou para defender a linha dos 51 pontos. Ao fim do pregão, o Ibovespa apontava baixa de 1,01%, aos 51.024 pontos, com giro financeiro em R$ 4,08 bilhões.
O ponto a ser destacado é que as perdas no Brasil foram menores que as registradas em outras praças de negociação. Em Wall Street, por exemplo, o Dow Jones caiu 2,63%, enquanto o Nasdaq recuou 2,67%. Já na Europa, Londres cedeu 2,45%, enquanto Frankfurt afundou 3,81%.
Segundo o diretor da Indusval Corretora, José Costa Gonçalves, a sinalização negativa proveniente do mercado externo reforça um consenso que ganha cada vez mais força entre os investidores: sem perspectiva de melhora rápida das economias de centro, o mercado doméstico ganha destaque.
” É isso que vai ditar o segundo semestre na bolsa. Essa história de que o quadro externo negativo vai se reverter no final do ano começa a perder força e os agentes passam a apostar nos projetos do mercado doméstico ” , diz Costa.
Segundo o especialista, há motivos de sobra para comprar essa história, pois o consumo no país é bastante elevado, há aumento de renda e o governo tem grandes investimentos em infraestrutura.
Ainda de acordo com Costa, as ações de primeira linha é que garantiram o ganho de 37% do Ibovespa no primeiro semestre. ” Agora, a bola da vez é o mercado doméstico ” , diz Costa, ressaltando as oportunidades de investimentos nos setores de telecomunicações, bancos, elétricas, construção e rodovias.
No câmbio, os compradores se fiaram na cena externa negativa e mandaram de ponta a ponta no pregão. Com isso, o dólar comercial subiu 1,19%, encerrando aos R$ 1,950 na compra e R$ 1,952 na venda.
Na roda de ” pronto ” da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar avançou 1,14%, para R$ 1,951. O giro financeiro na bolsa somou US$ 134,75 milhões, 47% inferior ao observado na quarta-feira. No interbancário, o volume caiu pela metade, para US$ 1,3 bilhão. Para esta sexta-feira, a expectativa é de poucos negócios, em função do feriado em Wall Street.
A alta no preço não afastou o Banco Central (BC) do mercado à vista e a autoridade monetária tomou moeda a R$ 1,9525 por volta das 15h40.
Os contratos de juros futuros encerraram sem tendência definida. A formação de preço ficou dividida entre os dados de produção industrial no mercado interno e a queda nos prêmios de risco dos títulos americanos.
Pela manhã, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que a produção industrial cresceu 1,3% em maio, contra abril, superando o consenso que sugeria alta de 0,8%. Esse foi o quinto mês seguido de expansão.
O economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, disse que a leitura mensal do indicador mostra que a recuperação da atividade ganha mais consistência.
O economista lembra que a melhora dos últimos meses estava muito apoiada em bens de consumo duráveis, que refletiam os incentivos do governo, mas, agora, o que se vê é uma reação, mesmo que inicial, nos segmento de bens de capital e bens intermediários.
Para Rosa, tal comportamento mostra o efeito das maiores exportações sobre a produção. ” Isso talvez seja o início de uma retomada ainda lenta, mas com mais consistência ” , resumiu o economista.
Já no confronto com maio de 2008, a atividade da indústria apresentou queda de 11,3%. No acumulado em 12 meses, a contração registrada é de 5,1%, pior resultado da série história, iniciada em 1991.
Ao final do pregão, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido da sessão, apontava baixa de 0,06 ponto, para 9,91%. Em direção contrária, o vencimento para janeiro de 2012 subiu 0,02 ponto, para 10,95%. E janeiro de 2013 projetava 11,62%, também com valorização de 0,02 ponto.
Entre os contratos curtos, janeiro de 2010 fechou estável a 8,78%. O vencimento agosto de 2009 cedeu 0,02 ponto, a 9%. Setembro e outubro de 2009 também recuaram 0,02 ponto, para 8,86% e 8,81%, respectivamente.
Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 362.355 contratos, equivalentes a R$ 31,78 bilhões (US$ 16,43 bilhões). O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 171.555 contratos, equivalentes a R$ 14,88 bilhões (US$ 7,69 bilhões).
(Eduardo Campos | Valor Online)
Fonte:Valor on line